sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

PARA REPENSAR NO NOVO ANO: Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, tanto que se despedaçou na última centrifugação da máquina de lavar

Desde quando os finais de tarde passaram a me seduzir? Eu nem tenho idéia. Nem mesmo sei como eles podem oferecer tão vasta gama de coloridos e de infinitas possibilidades, combinando sol, chuva, céu e nuvens para terminar o dia.
Quando era pequena, às vezes, acreditava que com tanta cor seria impossível anoitecer, a menos que se fizesse alguma coisa. Quando anoitecia, achava que o sol pudesse não voltar e ficaria escuro e estrelado até que alguém tomasse alguma providência.
Gostava de me preocupar com isso e era como se as transformações naturais causadas pela rotação da Terra dependessem da minha supervisão. Passado o período de presunção infantil, cujas crenças foram abaladas pelos conhecimentos da astronomia, o desejo de permanecer dona de alguma parte do universo, ser responsável pelo seu funcionamento e pela sua ordem se transferiram para outros objetos.
Freqüentemente, tomamos como nossas, as bagagens alheias que não nos pertencem. Há nisso um certo prazer, reinar absolutamente numa determinada situação ou área do pensamento, alimentar a nossa própria ilusão deste reinado, podendo até se beneficiar com isto, mas principalmente, massagear o ego. Em contrapartida, se paga o preço desta responsabilidade, numa troca que nos torna ao mesmo tempo vítima e algoz, escravo da autoridade exercida.
Isto pode ser levado para o cotidiano, quando temos as nossas obrigações a serem feitas, achando que damos conta do recado muito bem e “pode mandar mais coisas que eu tenho tempo livre”, aumentando o número de atividades indiscriminadamente até surtar. Aquilo com o que nos ocupamos pode até ser bem simples e prazeroso, mas dificilmente se pensa no lado cansativo da administração das tarefas e nas possibilidades de escolhas que se tem, antes de chegar ao stress.
Na vida prática, com um pouco de organização, disciplina e experiência, se chega à conclusão mais acertada para o momento, sendo de fundamental importância tomar conta apenas do que interessa e do que não atrapalha as prioridades.
Mas este é o maravilhoso mundo objetivo, pois diante da subjetividade, do imprevisível, dos abismos existentes em cada um de nós, parece que a liberdade de escolha da cor do pôr-do-sol, torna-se um fardo que acabamos assumindo mais do que se deveria. Acontece assim: No momento em que se decide por determinado fim de tarde, se exclui os outros; enquanto não se decide, a sensação é de que não anoitece.
Embora se saiba que a noite vai chegar de qualquer maneira e que tudo se desenrola sem peso, pois se escolhe um hoje, talvez outro amanhã e depois de amanhã talvez alguma outra pessoa decida, é criada uma ansiedade, uma angústia, uma culpa desnecessária pela escolha que quer agradar a todos, fazendo com que o livre arbítrio passe de benção para maldição.
É claro que seria bem mais simples se nos deparássemos apenas com um caminho a seguir e o coração gritasse esbaforido, sem deixar sombra de dúvida quanto à opção. Porém, é mais comum ficarmos paralisados de susto quando existem dois ou mais caminhos, e o coração sussurra, e nos perguntamos feito surdos ou imbecis: Heim? O que? Pode repetir que eu não prestei atenção?
Isto faz parte do nosso processo de evolução, do nosso autoconhecimento, do nosso aprendizado. Falo assim para tentar me convencer porque na verdade, me parece provação (ou seria provocação?). Eu gostava muito mais quando eu era responsável apenas pela seqüência dia e noite. Quero meu emprego de volta!
O conceito de liberdade é mais um ideal romântico ou iluminista que impuseram a nós, ocidentais. Na prática, ser livre é apenas escolher onde se quer ficar preso. Encrenca com pacote completo, o bom e o ruim, não vendidos separadamente.

“O universo é aleatório, moralmente neutro e inevitavelmente violento.”
WOODY ALLEN