Era uma vez, a mais ou menos dez mil milhas dentro de mim, um desejo que movia-se mais rapidamente do que meu pensamento, arrebatador, pulsante, que arrastava meu sentido de existência e impregnava cada gota do meu suor.
Com o tempo, descobri que outros se moviam com a mesma força e velocidade, tinham desejos irmãos, pertenciam ao mesmo clã, falavam a mesma fala e eram carentes da mesma fome.
Do movimento dos desejos, de vários corpos, de diferentes caras encontrei com os teatreiros, bailarinos, bonequeiros, artistas. Para alguns somos loucos, para outros, excêntricos, optantes pela mesma escolha, uma escolha nada simples, uma vida a ser vivida que não se encaixa no sistema, na sobrevivência de um emprego fixo, de uma carteira assinada. Uma vida marginal, à margem da sociedade, dos meios de comunicação de massa, dos top, dos objetivos de estratégia para somente uma ascenção econômica.
Nadamos contra a corrente "só pra exercitar". Nadamos contra a intolerância, contra a falsa e gentil simpatia. Nadamos contra métodos de persuasão a nossas ideologias ou a nossos atos desmedidos. Nadamos contra o teatro "bolo sol", mistura um monte de bobagens em três dias de ensaio e tá pronto.
Nadamos ainda porque há esperança e o público merece mais do que a ausência cada vez maior de políticas públicas culturais. Nadamos e somos capazes até de voar como forma de resistência, como forma de permanência.
Ousamos, provocamos, criamos enquanto as autoridades não reconhecem a importância de nossos atos como uma interferência positiva no panorama histórico e cultural da cidade de Porto Alegre, como construção de cidadania e referência social. Apesar disto, ainda produzimos nossa arte, os que não tem seu prórpio espaço, o buscam, os que têm, o mantêm com todas as dificuldades. Ainda assim, levamos poesia, alegria, instrospecção, os mais variados sentidos provocados nos teatros, ruas, oficinas.
Muitos de nós são obrigados a ter mais de uma atividade, se adaptando, se adequando aos horários de ensaio, de reuniões, fazendo o que for preciso para permanecer compartilhando.
Sou atriz de teatro de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, um país do Sul da América Latina. Descendente de imigrantes italianos, pobres e católicos. Nasci durante o regime militar, numa família de classe média baixa, a última de seis filhos. Minha educação foi firme, em alguns momentos castradora, em outros sem nenhum limite. Escolhi o teatro. Ele não me escolheu. Divido como tantos outros o desejo de uma sociedade mais justa, de um mundo melhor, de uma vida digna. Quero viver da minha arte, do meu ofício, criar novas possibilidades, resistir, compartilhar os desejos e sonhos que todos os profissionais desta área mantém, por mim, por nós e pelos que virão depois de nós.
A utopia não é um lugar que não existe. É um lugar onde ainda não estivemos. Sempre.
Jogos, espelhos, reflexos e reflexões. Pensamentos jogados ao vento na folha de papel, no layout do word. Movimentos do que vejo, do que comentam, do que me toca. Minha luz e minha sombra: Aprendo com a minha sombra, de vez em quando lhe dou um pedaço de bife pra que não me atormente. Tenho respeito por ela. Percebo sua presença, aquilo que não sou, mas ao mesmo tempo faz parte de mim, está em mim, como um espelho distorcido, um reflexo inverso.
sexta-feira, 20 de março de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
SOBRE A PREPARAÇÃO CORPORAL
Sempre questionei a necessidade do ator fazer exercícios físicos. O aquecimento, a preparação corporal, até mesmo os jogos, por que motivo eu devia fazer uma série repetitiva, ou fazer com que alunos meus, com cara de sono, passassem por isso?
Eu sabia que era bom, me sentia alongada e me trazia um certo bem estar, já que pratico regularmente atividades físicas desde os 11 anos de idade, quando comecei a praticar Ginástica Ritmica Desportiva. Mas tinham mais coisas que por mais que eu perguntasse a professores e atores mais experientes, eles sempre vinham com uma frase feita ou uma resposta pronta que fazia com que eu me sentisse uma preguiçosa.
O tempo, a prática e meus experimentos trouxeram a resposta: Os exercícios servem para ativar determinados pontos do corpo que estão "desacostumados" ou até mesmo atrofiados e que necessitam de oxigenação, de drenagem da área em questão e se expandir, levando o estado corporal "adormecido" para um "despertar" ao explorar outras possibilidades não experimentadas pelo corpo no estado cotidiano.
Vejo o corpo como um todo, um organismo vivo que reflete sobre os mais variados estímulos: A parte física, as células, a medula, os nervos, a mente. Se o corpo é disponível, o ator está disponível para o trabalho criativo, que por sua vez o levará a experiências fora de sua rotina, do seu padrão de comportamento.
Os exercícios e jogos acabam assim, trabalhando de forma indireta elementos e processos criativos que por algum motivo não estão acessíveis ao ator e ao diretor e é através deles que trazemos ao alcance do grupo o material que existe, mas não está definido ou presente até então.
"A fim de exprimir uma vida delicadíssima e em grande parte subconsciente, é preciso ter controle sobre uma aparelhagem física e vocal extraordinariamente sensível, otimamente preparada". (Stanislavski - A Preparação do Ator)
Mas isso, de nada adianta se o ator está voltado apenas para o virtuosismo corporal. O trabalho do ator começa de dentro para fora. Começa pela vontade de estar em risco, estar exposto ao vazio. O trabalho da arte é de verossimilhança, isso não quer dizer realismo e nem quer dizer codificação. Isso quer dizer que as ações não são vulgares e tudo o que é mostrado para o público é repleto de significados. A ação deve conduzir o espetáculo, o espectador e o ator, que deve estar preparado para se deixar levar e ao mesmo tempo estar consciente de sua criação.
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