Estou bem curiosa para ler o livro do alemão Hans Thies Lehmann e saber mais sobre este conceito do Teatro Pós Dramático. A reflexão é válida no momento em que há a constatação de uma forma de arte que se transforma e tem como característica a despreocupação com a transmissão de conteúdos e coloca seu objetivo no evento teatral, valorizando a estética da atuação na experiência do efêmero e na provocação do espectador.
Interessante, e como disse anteriormente, quero saber mais sobre isso, porque só esta breve explanação já me fez pensar em uma porção de coisas, entre elas “O que eu gosto de ver no teatro?” e “O que eu faço no teatro?”
Eu sou uma das poucas pessoas que conheço que fazem teatro e gostam de ir ao teatro. Gosto de ouvir histórias, de assistir como público comum, sem analisar a técnica ou os elementos cênicos escolhidos pelo diretor, gosto simplesmente de me deixar levar pela experiência transitória do ato teatral.
Acho muito importante as investigações de vanguarda, pois é daí que a arte se transforma, e nesse aspecto, Porto Alegre tem um teatro inovador, com profissionais atentos e competentes para explorar caminhos. O que é vanguarda hoje, ou é esquecido no tempo ou, se tem valor, se torna o ponto de discussão em comum amanhã. As novas experimentações são válidas, desde que não se tratem de modismos.
Há uns dez ou quinze anos atrás, o Teatro Antropológico era a “bola da vez”. Todo mundo pulava, fazia “energéticos”, sem mesmo saber exatamente o que era isso. Todos faziam oficinas com o LUME, com o UTA, “sabiam” fazer samurai e dança dos ventos.
A experiência se esvaziou. Poucos realmente tinham a real compreensão do que estavam fazendo e conseguiam fazer uma ponte com o teatro que acreditavam. Além das Ilhas Flutuantes é uma obra fantástica, uma das minhas preferidas referências de teatro, mas o quanto o conceito não foi deturpado e ainda mais, o quanto os “adeptos” de uma suposta antropologia conseguiram se apropriar das palavras de Eugênio Barba e trazer para o seu trabalho?
Os problemas de má interpretação vêm desde Stanislavski, quando só traduziram para o inglês A Preparação do Ator, levando anos para completar as informações com os outros dois livros. A questão é que o teatro, a arte não merecem classificação. Estão acima de conceitos, são atitudes, são obras de apreciação e reflexão, às vezes diversão, outras, desconforto. São formas de despertar os sentidos entorpecidos pelo cotidiano.
Quero ir ao teatro e ver teatro, não quero ver um conceito, uma técnica, uma explicação. Me conte uma história, não grite e se jogue no chão porque a narrativa tem que ser fragmentada, pois assim diz o manual de teatro pós dramático. Isso é chato. Isso não me toca. Isso não faz nenhuma conexão com a minha vida e duvido que faça com a vida de qualquer ser humano sedento por assistir um bom espetáculo de teatro.
Não é a forma que vai fazer o teatro ser interessante, é a vida implícita naquilo que está sendo mostrado. É um ponto de contato, uma referência com o mundo, interna ou externa, concreta ou absurda, patética ou risível, algo que faz uma parte pertencer ao todo.
Acredito num teatro em que o trabalho comece de dentro, a partir da vontade, da sensibilidade do artista em se apropriar de uma idéia, ou de um texto, de um seja o que for que mova uma verdadeira ação interna para desembocar externamente.
Minha maior influência no teatro que faço, no teatro que gosto, é a criança que fui, são minhas brincadeiras de faz de conta, voltando a Stanis, o “se” mágico. Outro dia me perguntaram com um certo horror: “Tu trabalhas com realismo?” Não, respondi, eu trabalho com o verossímil.
Se as pessoas tivessem as mentes tão abertas como elas dizem que têm, veriam que o trabalho de Stanis é fundamental até para o teatro pós dramático. Tudo o que se fez de teatro no século XX está ligado a Stanis, ou seguindo “o sistema” ou contra ele. Ele foi “o cara”, foi o primeiro a defender sua idéia, criou um método para o ator relacionado ao período que viveu, uma época que se encheu do melodrama, dos monstros sagrados, da atuação exagerada. Seu tempo é o da invenção da iluminação elétrica que finalmente fechava quarta parede, onde se podia experimentar o drama social como uma vida fechada, pré cinema, pré TV.
Quando releio hoje algumas de suas propostas, acho pueril, ridículas, mas também encontro verdadeiras pérolas que reneguei por modismo e agora percebo de forma diferente. O que me fica de Stanis é o seu encantamento pela arte e a possibilidade do ator de brincar com a realidade.
Da mesma forma, Brecht me mostrou os contrastes, assuntos sérios ditos sem sublinhar a seriedade, sem sofrimento, calmo, leve, engraçado ou qualquer outra forma contrastante que causa muito mais efeito e muito mais engasgo no espectador. Distanciar não é ser frio é dar espaço para redimensionar o fato e ressignificar a coisa.
Depois também tem o Grotowski que me apresentou o corpo, a disciplina, a concentração de um ator desnudo próximo do espectador, sem tábua de salvação. A importância de determinada ritualização num trabalho de aprofundamento, do eterno retorno do ator, do Eros ao Tânatus.
Encontro um ombro amigo
Faço também cola de colegas, pessoas da ativa, da batalha diária de fazer teatro
Pode parecer que sou uma adepta do “teatro burguês”, o teatrão, palco italiano, texto clássico. Pensem como quiserem. Passei da fase da negação deste ou daquele tipo de teatro. O bom teatro é questão de competência e não do estilo. O que me preocupa em questão de linguagem é o quanto um público em potencial pode estar se afastando de assistir aos espetáculos em virtude de uma não compreensão destes.
Também passei da fase de fazer um teatro para poucos. O que me alimenta no sentido espiritual e também físico é a casa cheia, o retorno da platéia. Que teatro é este feito para os “escolhidos”, os “iniciados”, os que “entendem”? Afastar o espectador com um teatro elitista, no qual o espectador tenha que conhecer esta ou aquela teoria torna o ato teatral num exercício intelectual, vazio e irrelevante.
Quanto a mim, não sigo nenhuma linha. Sigo todas elas.
