Jogos, espelhos, reflexos e reflexões. Pensamentos jogados ao vento na folha de papel, no layout do word. Movimentos do que vejo, do que comentam, do que me toca. Minha luz e minha sombra: Aprendo com a minha sombra, de vez em quando lhe dou um pedaço de bife pra que não me atormente. Tenho respeito por ela. Percebo sua presença, aquilo que não sou, mas ao mesmo tempo faz parte de mim, está em mim, como um espelho distorcido, um reflexo inverso.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Fazer arte em Porto Alegre
Com o tempo, descobri que outros se moviam com a mesma força e velocidade, tinham desejos irmãos, pertenciam ao mesmo clã, falavam a mesma fala e eram carentes da mesma fome.
Do movimento dos desejos, de vários corpos, de diferentes caras encontrei com os teatreiros, bailarinos, bonequeiros, artistas. Para alguns somos loucos, para outros, excêntricos, optantes pela mesma escolha, uma escolha nada simples, uma vida a ser vivida que não se encaixa no sistema, na sobrevivência de um emprego fixo, de uma carteira assinada. Uma vida marginal, à margem da sociedade, dos meios de comunicação de massa, dos top, dos objetivos de estratégia para somente uma ascenção econômica.
Nadamos contra a corrente "só pra exercitar". Nadamos contra a intolerância, contra a falsa e gentil simpatia. Nadamos contra métodos de persuasão a nossas ideologias ou a nossos atos desmedidos. Nadamos contra o teatro "bolo sol", mistura um monte de bobagens em três dias de ensaio e tá pronto.
Nadamos ainda porque há esperança e o público merece mais do que a ausência cada vez maior de políticas públicas culturais. Nadamos e somos capazes até de voar como forma de resistência, como forma de permanência.
Ousamos, provocamos, criamos enquanto as autoridades não reconhecem a importância de nossos atos como uma interferência positiva no panorama histórico e cultural da cidade de Porto Alegre, como construção de cidadania e referência social. Apesar disto, ainda produzimos nossa arte, os que não tem seu prórpio espaço, o buscam, os que têm, o mantêm com todas as dificuldades. Ainda assim, levamos poesia, alegria, instrospecção, os mais variados sentidos provocados nos teatros, ruas, oficinas.
Muitos de nós são obrigados a ter mais de uma atividade, se adaptando, se adequando aos horários de ensaio, de reuniões, fazendo o que for preciso para permanecer compartilhando.
Sou atriz de teatro de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, um país do Sul da América Latina. Descendente de imigrantes italianos, pobres e católicos. Nasci durante o regime militar, numa família de classe média baixa, a última de seis filhos. Minha educação foi firme, em alguns momentos castradora, em outros sem nenhum limite. Escolhi o teatro. Ele não me escolheu. Divido como tantos outros o desejo de uma sociedade mais justa, de um mundo melhor, de uma vida digna. Quero viver da minha arte, do meu ofício, criar novas possibilidades, resistir, compartilhar os desejos e sonhos que todos os profissionais desta área mantém, por mim, por nós e pelos que virão depois de nós.
A utopia não é um lugar que não existe. É um lugar onde ainda não estivemos. Sempre.
quarta-feira, 18 de março de 2009
SOBRE A PREPARAÇÃO CORPORAL
Sempre questionei a necessidade do ator fazer exercícios físicos. O aquecimento, a preparação corporal, até mesmo os jogos, por que motivo eu devia fazer uma série repetitiva, ou fazer com que alunos meus, com cara de sono, passassem por isso?
Eu sabia que era bom, me sentia alongada e me trazia um certo bem estar, já que pratico regularmente atividades físicas desde os 11 anos de idade, quando comecei a praticar Ginástica Ritmica Desportiva. Mas tinham mais coisas que por mais que eu perguntasse a professores e atores mais experientes, eles sempre vinham com uma frase feita ou uma resposta pronta que fazia com que eu me sentisse uma preguiçosa.
O tempo, a prática e meus experimentos trouxeram a resposta: Os exercícios servem para ativar determinados pontos do corpo que estão "desacostumados" ou até mesmo atrofiados e que necessitam de oxigenação, de drenagem da área em questão e se expandir, levando o estado corporal "adormecido" para um "despertar" ao explorar outras possibilidades não experimentadas pelo corpo no estado cotidiano.
Vejo o corpo como um todo, um organismo vivo que reflete sobre os mais variados estímulos: A parte física, as células, a medula, os nervos, a mente. Se o corpo é disponível, o ator está disponível para o trabalho criativo, que por sua vez o levará a experiências fora de sua rotina, do seu padrão de comportamento.
Os exercícios e jogos acabam assim, trabalhando de forma indireta elementos e processos criativos que por algum motivo não estão acessíveis ao ator e ao diretor e é através deles que trazemos ao alcance do grupo o material que existe, mas não está definido ou presente até então.
"A fim de exprimir uma vida delicadíssima e em grande parte subconsciente, é preciso ter controle sobre uma aparelhagem física e vocal extraordinariamente sensível, otimamente preparada". (Stanislavski - A Preparação do Ator)
Mas isso, de nada adianta se o ator está voltado apenas para o virtuosismo corporal. O trabalho do ator começa de dentro para fora. Começa pela vontade de estar em risco, estar exposto ao vazio. O trabalho da arte é de verossimilhança, isso não quer dizer realismo e nem quer dizer codificação. Isso quer dizer que as ações não são vulgares e tudo o que é mostrado para o público é repleto de significados. A ação deve conduzir o espetáculo, o espectador e o ator, que deve estar preparado para se deixar levar e ao mesmo tempo estar consciente de sua criação.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
MAS QUE DIABO É ESSE TEATRO PÓS DRAMÁTICO?
Estou bem curiosa para ler o livro do alemão Hans Thies Lehmann e saber mais sobre este conceito do Teatro Pós Dramático. A reflexão é válida no momento em que há a constatação de uma forma de arte que se transforma e tem como característica a despreocupação com a transmissão de conteúdos e coloca seu objetivo no evento teatral, valorizando a estética da atuação na experiência do efêmero e na provocação do espectador.
Interessante, e como disse anteriormente, quero saber mais sobre isso, porque só esta breve explanação já me fez pensar em uma porção de coisas, entre elas “O que eu gosto de ver no teatro?” e “O que eu faço no teatro?”
Eu sou uma das poucas pessoas que conheço que fazem teatro e gostam de ir ao teatro. Gosto de ouvir histórias, de assistir como público comum, sem analisar a técnica ou os elementos cênicos escolhidos pelo diretor, gosto simplesmente de me deixar levar pela experiência transitória do ato teatral.
Acho muito importante as investigações de vanguarda, pois é daí que a arte se transforma, e nesse aspecto, Porto Alegre tem um teatro inovador, com profissionais atentos e competentes para explorar caminhos. O que é vanguarda hoje, ou é esquecido no tempo ou, se tem valor, se torna o ponto de discussão em comum amanhã. As novas experimentações são válidas, desde que não se tratem de modismos.
Há uns dez ou quinze anos atrás, o Teatro Antropológico era a “bola da vez”. Todo mundo pulava, fazia “energéticos”, sem mesmo saber exatamente o que era isso. Todos faziam oficinas com o LUME, com o UTA, “sabiam” fazer samurai e dança dos ventos.
A experiência se esvaziou. Poucos realmente tinham a real compreensão do que estavam fazendo e conseguiam fazer uma ponte com o teatro que acreditavam. Além das Ilhas Flutuantes é uma obra fantástica, uma das minhas preferidas referências de teatro, mas o quanto o conceito não foi deturpado e ainda mais, o quanto os “adeptos” de uma suposta antropologia conseguiram se apropriar das palavras de Eugênio Barba e trazer para o seu trabalho?
Os problemas de má interpretação vêm desde Stanislavski, quando só traduziram para o inglês A Preparação do Ator, levando anos para completar as informações com os outros dois livros. A questão é que o teatro, a arte não merecem classificação. Estão acima de conceitos, são atitudes, são obras de apreciação e reflexão, às vezes diversão, outras, desconforto. São formas de despertar os sentidos entorpecidos pelo cotidiano.
Quero ir ao teatro e ver teatro, não quero ver um conceito, uma técnica, uma explicação. Me conte uma história, não grite e se jogue no chão porque a narrativa tem que ser fragmentada, pois assim diz o manual de teatro pós dramático. Isso é chato. Isso não me toca. Isso não faz nenhuma conexão com a minha vida e duvido que faça com a vida de qualquer ser humano sedento por assistir um bom espetáculo de teatro.
Não é a forma que vai fazer o teatro ser interessante, é a vida implícita naquilo que está sendo mostrado. É um ponto de contato, uma referência com o mundo, interna ou externa, concreta ou absurda, patética ou risível, algo que faz uma parte pertencer ao todo.
Acredito num teatro em que o trabalho comece de dentro, a partir da vontade, da sensibilidade do artista em se apropriar de uma idéia, ou de um texto, de um seja o que for que mova uma verdadeira ação interna para desembocar externamente.
Minha maior influência no teatro que faço, no teatro que gosto, é a criança que fui, são minhas brincadeiras de faz de conta, voltando a Stanis, o “se” mágico. Outro dia me perguntaram com um certo horror: “Tu trabalhas com realismo?” Não, respondi, eu trabalho com o verossímil.
Se as pessoas tivessem as mentes tão abertas como elas dizem que têm, veriam que o trabalho de Stanis é fundamental até para o teatro pós dramático. Tudo o que se fez de teatro no século XX está ligado a Stanis, ou seguindo “o sistema” ou contra ele. Ele foi “o cara”, foi o primeiro a defender sua idéia, criou um método para o ator relacionado ao período que viveu, uma época que se encheu do melodrama, dos monstros sagrados, da atuação exagerada. Seu tempo é o da invenção da iluminação elétrica que finalmente fechava quarta parede, onde se podia experimentar o drama social como uma vida fechada, pré cinema, pré TV.
Quando releio hoje algumas de suas propostas, acho pueril, ridículas, mas também encontro verdadeiras pérolas que reneguei por modismo e agora percebo de forma diferente. O que me fica de Stanis é o seu encantamento pela arte e a possibilidade do ator de brincar com a realidade.
Da mesma forma, Brecht me mostrou os contrastes, assuntos sérios ditos sem sublinhar a seriedade, sem sofrimento, calmo, leve, engraçado ou qualquer outra forma contrastante que causa muito mais efeito e muito mais engasgo no espectador. Distanciar não é ser frio é dar espaço para redimensionar o fato e ressignificar a coisa.
Depois também tem o Grotowski que me apresentou o corpo, a disciplina, a concentração de um ator desnudo próximo do espectador, sem tábua de salvação. A importância de determinada ritualização num trabalho de aprofundamento, do eterno retorno do ator, do Eros ao Tânatus.
Encontro um ombro amigo
Faço também cola de colegas, pessoas da ativa, da batalha diária de fazer teatro
Pode parecer que sou uma adepta do “teatro burguês”, o teatrão, palco italiano, texto clássico. Pensem como quiserem. Passei da fase da negação deste ou daquele tipo de teatro. O bom teatro é questão de competência e não do estilo. O que me preocupa em questão de linguagem é o quanto um público em potencial pode estar se afastando de assistir aos espetáculos em virtude de uma não compreensão destes.
Também passei da fase de fazer um teatro para poucos. O que me alimenta no sentido espiritual e também físico é a casa cheia, o retorno da platéia. Que teatro é este feito para os “escolhidos”, os “iniciados”, os que “entendem”? Afastar o espectador com um teatro elitista, no qual o espectador tenha que conhecer esta ou aquela teoria torna o ato teatral num exercício intelectual, vazio e irrelevante.
Quanto a mim, não sigo nenhuma linha. Sigo todas elas.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
ORAÇÃO
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
PARA REPENSAR NO NOVO ANO: Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, tanto que se despedaçou na última centrifugação da máquina de lavar
Quando era pequena, às vezes, acreditava que com tanta cor seria impossível anoitecer, a menos que se fizesse alguma coisa. Quando anoitecia, achava que o sol pudesse não voltar e ficaria escuro e estrelado até que alguém tomasse alguma providência.
Gostava de me preocupar com isso e era como se as transformações naturais causadas pela rotação da Terra dependessem da minha supervisão. Passado o período de presunção infantil, cujas crenças foram abaladas pelos conhecimentos da astronomia, o desejo de permanecer dona de alguma parte do universo, ser responsável pelo seu funcionamento e pela sua ordem se transferiram para outros objetos.
Freqüentemente, tomamos como nossas, as bagagens alheias que não nos pertencem. Há nisso um certo prazer, reinar absolutamente numa determinada situação ou área do pensamento, alimentar a nossa própria ilusão deste reinado, podendo até se beneficiar com isto, mas principalmente, massagear o ego. Em contrapartida, se paga o preço desta responsabilidade, numa troca que nos torna ao mesmo tempo vítima e algoz, escravo da autoridade exercida.
Isto pode ser levado para o cotidiano, quando temos as nossas obrigações a serem feitas, achando que damos conta do recado muito bem e “pode mandar mais coisas que eu tenho tempo livre”, aumentando o número de atividades indiscriminadamente até surtar. Aquilo com o que nos ocupamos pode até ser bem simples e prazeroso, mas dificilmente se pensa no lado cansativo da administração das tarefas e nas possibilidades de escolhas que se tem, antes de chegar ao stress.
Na vida prática, com um pouco de organização, disciplina e experiência, se chega à conclusão mais acertada para o momento, sendo de fundamental importância tomar conta apenas do que interessa e do que não atrapalha as prioridades.
Mas este é o maravilhoso mundo objetivo, pois diante da subjetividade, do imprevisível, dos abismos existentes em cada um de nós, parece que a liberdade de escolha da cor do pôr-do-sol, torna-se um fardo que acabamos assumindo mais do que se deveria. Acontece assim: No momento em que se decide por determinado fim de tarde, se exclui os outros; enquanto não se decide, a sensação é de que não anoitece.
Embora se saiba que a noite vai chegar de qualquer maneira e que tudo se desenrola sem peso, pois se escolhe um hoje, talvez outro amanhã e depois de amanhã talvez alguma outra pessoa decida, é criada uma ansiedade, uma angústia, uma culpa desnecessária pela escolha que quer agradar a todos, fazendo com que o livre arbítrio passe de benção para maldição.
É claro que seria bem mais simples se nos deparássemos apenas com um caminho a seguir e o coração gritasse esbaforido, sem deixar sombra de dúvida quanto à opção. Porém, é mais comum ficarmos paralisados de susto quando existem dois ou mais caminhos, e o coração sussurra, e nos perguntamos feito surdos ou imbecis: Heim? O que? Pode repetir que eu não prestei atenção?
Isto faz parte do nosso processo de evolução, do nosso autoconhecimento, do nosso aprendizado. Falo assim para tentar me convencer porque na verdade, me parece provação (ou seria provocação?). Eu gostava muito mais quando eu era responsável apenas pela seqüência dia e noite. Quero meu emprego de volta!
O conceito de liberdade é mais um ideal romântico ou iluminista que impuseram a nós, ocidentais. Na prática, ser livre é apenas escolher onde se quer ficar preso. Encrenca com pacote completo, o bom e o ruim, não vendidos separadamente.
“O universo é aleatório, moralmente neutro e inevitavelmente violento.”
WOODY ALLEN
