"Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar, eu quero ser o primeiro a saudar Yemanjá!"
E chega o mês de fevereiro no pior verão de nossa história climática, quente, escaldante, 40 graus à sombra. A praia é um refúgio com a brisa marinha. Qual não foi nossa surpresa ainda na estrada quando nos deparamos com as hélices dos cataventos de Osório completamente paradas, demostrando o que seria aquele fim de semana, sem nenhum vento na capital dos ventos.
Haja protetor solar e toca pra Tramandaí, nossa próxima parada. Mais uma vez, o profissionalismo dos nossos contratantes não deixa de nos surpreender quando, no dia anterior, nos foi solicitado fazermos duas apresentações no mesmo dia, pois o domingo seria cancelado em virtude do dia de Yemanjá, em Cidreira, a praia do dia seguinte. Além do mais, teríamos a cobertura do Jornal do Comércio para que a coordenadora do projeto pudesse abrir seu coração à imprensa. Beleza! Fizemos, somos profissionais e não queríamos dar nenhum motivo para duvidarem disso.
No local indicado, mal havia espaço para nós, quanto mais para o público. Resolvemos fazer numa praça, próximo ao lugar. Tínhamos realizado "o sonho do gazebo próprio" e serviria até para nos abrigar de uns poucos pingos de chuva que caíram no decorrer do período.
Após a apresentação, desmontamos tudo e saímos, porque não ficaria ninguém para cuidar do nosso material até a próxima apresentação. Tramandaí tem um lugar ótimo para almoçar, o restaurante ao lado do hotel Mares do Sul, a comida é ótima, o atendimento é delicado e eficiente e o preço é bem barato. Após o almoço, fomos até a lagoa da caca de pássaros, ficamos desta vez dentro do carro para evitar acidentes e à tarde voltamos para a segunda apresentação. Durante a montagem da tarde, um dos quadros do estande quebrou perto de onde o Cícero estava e tivemos o nosso primeiro acidente de trabalho desta temporada: um corte na perna e no dedo, quando ele recolhia um caco de vidro.
Vejam bem: Quadros com moldura de vidro, transportados todo o final de semana para exposição ao ar livre à beira mar. Mas quem teve esta ideia? Super seguro, não é mesmo?
No fim do dia, fomos rumo à Cidreira. Não haveria apresentação, mas eu já havia reservado um hotelzinho bem barato. Era um dia para curtir, já que estava pago e nos avisaram em cima da hora, mais uma vez, da mudança de planos de apresentação.
No outro dia, saudei Yemanjá e fomos embora. Pegamos nosso pior engarrafamento. Mais de duas horas num sol a pino, pensamos em voltar pelas quatro da tarde, antes do povo todo sair da praia, mas acho que todo mundo teve a mesma ideia. Passei mal, quando chegamos em Porto Alegre, fazia 43 graus, fomos para um ar condicionado de shopping e bebi uma coca-cola hiper gelada pra levantar a pressão.
Numa boa!
Jogos, espelhos, reflexos e reflexões. Pensamentos jogados ao vento na folha de papel, no layout do word. Movimentos do que vejo, do que comentam, do que me toca. Minha luz e minha sombra: Aprendo com a minha sombra, de vez em quando lhe dou um pedaço de bife pra que não me atormente. Tenho respeito por ela. Percebo sua presença, aquilo que não sou, mas ao mesmo tempo faz parte de mim, está em mim, como um espelho distorcido, um reflexo inverso.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Paralelas: O que acontece... Parte V
"Amanheceu, peguei a viola, botei na sacola e fui viajar..."
Quase isso, só faltando o ar de liberdade impregnado em Almir Sater, pois sou mais mau humorada e já tendo tantas surpresas ruins no decorrer deste projeto, fico escaldada.
A semana entre a apresentação de Xangri-lá e Imbé foi tumultuada, em vista de que já havíamos realizado sete apresentações e nada ainda do pagamento, acordo de adiantamento em 50% do projeto para despesas de viagem. A gente não tinha mais de onde tirar e falei que não teríamos mais como ir às apresentações sem grana, sugeri até uma vaquinha entre os contratantes. Nossa, o que espernearam:
"Mas tu tens que compreender... o Estado é assim mesmo... a burocracia é normal... vocês não podem nos deixar na mão..." e por aí adiante.
Só que não adiantava chorar, pois não era mentira, a gente não tinha mais dinheiro mesmo. No calor da hora, aos 45 minutos do segundo tempo, na sexta-feira pela manhã, eles deram um jeito. Daí a gente vê, quando querem de verdade, eles dão um jeito.
"Mas tu tens que compreender... o Estado é assim mesmo... a burocracia é normal... vocês não podem nos deixar na mão..." e por aí adiante.
Só que não adiantava chorar, pois não era mentira, a gente não tinha mais dinheiro mesmo. No calor da hora, aos 45 minutos do segundo tempo, na sexta-feira pela manhã, eles deram um jeito. Daí a gente vê, quando querem de verdade, eles dão um jeito.
Mas parece que não era pra ser esta apresentação em Imbé, (Deus, de novo lá, não!) pois os deuses nos ouviram mandando um tremendo temporal que fez ventar tão forte que entortou as estruturas das barracas onde nos apresentávamos. Fomos informados no sábado à tarde sobre o cancelamento e domingo pela manhã a confirmação de que nada ia acontecer naquele dia de verão frio, chuvoso e com ventania.
Neste findi descansei, dormi bem porque o calor de 40 graus estava aliviado pela chuva e vi TV com o meu marido e parceiro de estradas, desta vez de verdade: Numa bem boa!
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Paralelas: O que acontece... Parte IV
Sol, calorão, 35 graus na beira-mar, às 16 horas no alto verão em Xangri-lá, bem diferente da lenda de um local paradisíaco, mas um amontoado de areia quente, com péssima pavimentação das ruas e quintal dos ricos gaúchos. Por que será que alguém com grana vai para Xangri-lá? Por que não vai viajar de verdade? Vai pra Floripa? Torres? Pois, não há o que não haja!
As apresentações do grupo começaram a ganhar ritmo e agilidade na nova configuração sal, sol ,sul. Tá bem legal mesmo e o mérito é nosso em descobrir como adaptar um espetáculo feito para locais pequenos e fechados para a rua, na praia e disputando o foco com brinquedos infláveis e banho de mar. Temos uma pequena ajuda dos funcionários que nos acompanham, mas eles não tem a menos ideia do que seja uma pré-produção, sua ajuda é no olhar de piedade ao nos ver derretendo ao sol, num copo d'água que uma boa alma nos traz, num "se precisar de alguma coisa, é só falar, viu!" Só que isso não é produção. Ainda temos que descobrir o local da apresentação, achar um lugar para estacionar o carro, explicar para a guarda da operação golfinho que temos que ficar perto do mar para descarregar o material, pois somos "artistas" do espetáculo e temos que fazer a produção do local, pensar no nosso espaço e na acomodação do público. SESC e teatro a mil, nunca mais reclamo, amo vocês!
Uma pena que em Xangri-lá pouca gente vai à praia. Acabou que quase as mesmas vinte/trinta crianças que nos viram no sábado, viram de novo no domingo. Elas curtiram, a gente curtiu a troca, mas fica o vazio daquilo que poderia vir a ser e sabemos que não será.
Beijo para a Nona, a dona da Pousada Girassol que nos recebeu em Capão da Canoa. Ela é jovem, mas o apelido é porque o nome dela, segundo a própria, é tão difícil que era melhor a gente chamar ela por Nona mesmo. A hospedagem é bem simples, melhor que a do Betão (ver a Parte III), o problema é que foi uma noite muito quente. A melhor coisa foi ver a lua cheia nascendo no mar, vermelha no parto com a terra e a água.
Na volta, sofremos um pouco mais com o calor e o engarrafamento. Pegamos a RS 030 num lapso do meu lindo e querido motorista, por um bom tempo achei a estrada velha para Santo Antônio da Patrulha com uma paisagem incrível, mas depois foi confuso, anoiteceu, nos perdemos em Gravataí e chegamos em casa quatro horas depois da saída de Capão.
Como a viagem foi longa, aproveitei para tirar umas fotos, olha a amadora aparecendo no retrovisor!
As apresentações do grupo começaram a ganhar ritmo e agilidade na nova configuração sal, sol ,sul. Tá bem legal mesmo e o mérito é nosso em descobrir como adaptar um espetáculo feito para locais pequenos e fechados para a rua, na praia e disputando o foco com brinquedos infláveis e banho de mar. Temos uma pequena ajuda dos funcionários que nos acompanham, mas eles não tem a menos ideia do que seja uma pré-produção, sua ajuda é no olhar de piedade ao nos ver derretendo ao sol, num copo d'água que uma boa alma nos traz, num "se precisar de alguma coisa, é só falar, viu!" Só que isso não é produção. Ainda temos que descobrir o local da apresentação, achar um lugar para estacionar o carro, explicar para a guarda da operação golfinho que temos que ficar perto do mar para descarregar o material, pois somos "artistas" do espetáculo e temos que fazer a produção do local, pensar no nosso espaço e na acomodação do público. SESC e teatro a mil, nunca mais reclamo, amo vocês!
Uma pena que em Xangri-lá pouca gente vai à praia. Acabou que quase as mesmas vinte/trinta crianças que nos viram no sábado, viram de novo no domingo. Elas curtiram, a gente curtiu a troca, mas fica o vazio daquilo que poderia vir a ser e sabemos que não será.
Beijo para a Nona, a dona da Pousada Girassol que nos recebeu em Capão da Canoa. Ela é jovem, mas o apelido é porque o nome dela, segundo a própria, é tão difícil que era melhor a gente chamar ela por Nona mesmo. A hospedagem é bem simples, melhor que a do Betão (ver a Parte III), o problema é que foi uma noite muito quente. A melhor coisa foi ver a lua cheia nascendo no mar, vermelha no parto com a terra e a água.
Na volta, sofremos um pouco mais com o calor e o engarrafamento. Pegamos a RS 030 num lapso do meu lindo e querido motorista, por um bom tempo achei a estrada velha para Santo Antônio da Patrulha com uma paisagem incrível, mas depois foi confuso, anoiteceu, nos perdemos em Gravataí e chegamos em casa quatro horas depois da saída de Capão.
Como a viagem foi longa, aproveitei para tirar umas fotos, olha a amadora aparecendo no retrovisor!
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Paralelas: O que acontece... Parte III
Dia 11 de Janeiro a Caravana Mambembe seguiu rumo à Torres, minha praia do coração. Graças aos deuses durmo com o celular desligado, porque por volta da uma da manhã, tentavam me ligar para antecipar a apresentação que estava marcada para a tarde, para a manhã. Oi? Pois é, Torres, umas duas horas e meia, uma leve mudança de horário, avisada durante a madrugada, pois o climatempo previa chuva para a parte da tarde. Oi, de novo? Bem, passada a tormenta, ou mal passada, seguimos no nosso tempo e os estressados que aguentem suas úlceras e não nos incomodem.
Não tínhamos reservado nenhum lugar para ficar, estava tudo lotado, inclusive nossa pousadinha preferida na Guarita. Acabamos ficando no seu Betão, lugar bem simples, quarto com muito cheiro de mofo e o pior colchão da temporada, daqueles que a gente afunda e talvez se perca lá em baixo, mas as pessoas lá fizeram valer a pena gente muita. Em um dia conhecemos uma família de Caxias, uma guria louca com três filhas de Gramado, uma dupla de senegaleses e um músico bem legal, o Beto Beatle, no convívio da cozinha coletiva.
Quanto a apresentação: Com um temporal se armando antecipamos o início em uma hora, o público era ótimo e ficou mesmo com um início de chuva até o fim. Acredito ter sido o público mais eceptivo à história toda. A Prainha foi um dos melhores locais de apresentação, longe da areia e com uma área pra curtir shows, teatro, música. Teatro tem que ter seu espaço, não pode se adequar demais, senão ele não acontece. Na beira mar, as pessoas não querem saber de assistir coisa alguma, elas querem relaxar, curtir uma insolação, um bicho de pé, uma onda. Não me apareçam com "teatrinho". Agora numa praça, mesmo sendo praia, é mais astral, o povo vai tomar chimas, ver a peça. Aí acontece, a gente consegue fazer o trabalho e fica até feliz.
No dia seguinte, chovia cântaros e fizemos o primeiro cancelamento do verão. Coisas de espetáculos na rua. No seu Betão chovia também, as águas transbordaram nas ruas de Torres, o tédio bateu e fomos embora antes do previsto. Numa boa!
Não tínhamos reservado nenhum lugar para ficar, estava tudo lotado, inclusive nossa pousadinha preferida na Guarita. Acabamos ficando no seu Betão, lugar bem simples, quarto com muito cheiro de mofo e o pior colchão da temporada, daqueles que a gente afunda e talvez se perca lá em baixo, mas as pessoas lá fizeram valer a pena gente muita. Em um dia conhecemos uma família de Caxias, uma guria louca com três filhas de Gramado, uma dupla de senegaleses e um músico bem legal, o Beto Beatle, no convívio da cozinha coletiva.
Quanto a apresentação: Com um temporal se armando antecipamos o início em uma hora, o público era ótimo e ficou mesmo com um início de chuva até o fim. Acredito ter sido o público mais eceptivo à história toda. A Prainha foi um dos melhores locais de apresentação, longe da areia e com uma área pra curtir shows, teatro, música. Teatro tem que ter seu espaço, não pode se adequar demais, senão ele não acontece. Na beira mar, as pessoas não querem saber de assistir coisa alguma, elas querem relaxar, curtir uma insolação, um bicho de pé, uma onda. Não me apareçam com "teatrinho". Agora numa praça, mesmo sendo praia, é mais astral, o povo vai tomar chimas, ver a peça. Aí acontece, a gente consegue fazer o trabalho e fica até feliz.
No dia seguinte, chovia cântaros e fizemos o primeiro cancelamento do verão. Coisas de espetáculos na rua. No seu Betão chovia também, as águas transbordaram nas ruas de Torres, o tédio bateu e fomos embora antes do previsto. Numa boa!
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Paralelas: O que acontece... Parte II
Diário de bordo: repassando as anotações paralelas ao relatório oficial. Seguiram as apresentações na primeira semana de janeiro. Como já havíamos nos chocado com tudo na abertura do projeto, já estávamos mais descolados e prontos para o jogo. Chegamos cedo na praia, pois como não tínhamos muito verba (ainda não havia saído o pagamento) resolvemos procurar um camping. Foi no Santa Luzia que paramos em Capão da Canoa, bastante área verde, mas não tinha cozinha e o banheiro era horroroso, daqueles que dá medo sentar no vaso. A indiada da noite no acampamento foi com nosso colchão de ar que estava com um vazamento, uma unha de gato afiada fez um furo invisível, porém existente. Durante a noite acordava e cada vez estava mais próxima ao chão, até que o inevitável aconteceu, o colchão esvaziou e em meio a gargalhadas, porque só rindo, mesmo, pegamos o edredon e deitamos por cima dele. É claro que passamos o dia com sono. Quanto às apresentações, descobrimos que quem está na praia sábado, está no domingo e portanto, temos o mesmo público nos dois dias, com raras exceções. A apresentação de domingo foi ótima, apesar do calorão, nossa amiga Vivi Juguero e sua família estavam lá de acampamento e toalha na cabeça para afastar o sol e nos prestigiar. De resto... tudo com a gente, produção do evento que é bom... nenhuma! "Numa boa"! Sente só o solaço no Cícero.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Paralelas: O que acontece no verão, na boa?
Aqui começam alguma singelas anotações, um diário paralelo ao oficial a ser entregue às autoridades (in) competentes, recapitulando os fatos para que se pense sempre neles e se reflita o quanto somos tão ingênuos e dependentes de políticas públicas culturais.
No mês de outubro de 2013, fui chamada num setor público para formular uma proposta sobre o espetáculo com temática ambiental da Companhia. Na mesma semana, enviei proposta para vinte apresentações, que foi o solicitado. Passou-se outubro, passou-se novembro e cansei de ligar e enviar e-mails para saber se a proposta havia sido aceita, pois como a primeira apresentação seria no dia 21 de dezembro, não haveria mais tempo para contratação, então enviei um e-mail elegante, dizendo que sabia da burocracia dos órgãos públicos estatais e ficava aberta a uma outra proposta num outro momento. Imediatamente "os aguapés se mexeram", como diria meu avô e foi uma correria de certidão e assinaturas, empenhos e reuniões para que se desse a tal contratação. Tudo muito amador, muito sem respaldo legal, sem o conhecimento dos trâmites para a realização de uma prestação de serviço. O combinado desde outubro era que metade do valor contratado seria pago inicialmente para as despesas gerais do grupo, pois como já sabemos de outros carnavais, se fizéssemos tudo sem receber, este pagamento só viria em julho e olhe lá, que tem a Copa.
Pois não saiu o pagamento no dia 21 de dezembro, data da abertura do evento e a coordenadora das atividades me pediu com veemência que fizéssemos a abertura, pois talvez demorasse mais uma semana ou talvez duas, até recebermos o valor combinado. Então, como ingênuos e de alma aberta, querendo fazer nosso trabalho fomos à praia de Imbé.
Choque total: não havia estrutura nenhuma para receber qualquer tipo de apresentação teatral. Nada. Havia uma arena com brinquedos infláveis, areia e sol. E nada. Desespero e pavor. Não havia público. Não tinha divulgação. Nada. Pânico. Não foi providenciado um espaço sequer para a montagem do espetáculo, nem precisaria ser um palco, mas um espaço organizado, com um toldo e por que não, até cadeiras para acomodar o público. Nada. Camarim? kkkkkkkkkkk!
O teatro é um excelente instrumento de reflexão, capaz de mobilizar, criar potencialidades humanas, mas sem produção não se basta.
Além destes fatores havia pronunciamentos de várias chefias, governador, música alta, banda da brigada, desfile da operação golfinho, muvuca que não acabava mais e nem um vislumbre de qualquer espectador se aproximar de nós para assistir uma história. Depois de muito atraso e muitas tentativas de formar um pequeno público resolvemos fazer assim mesmo e o espetáculo aconteceu. Aconteceu naquelas, né. Muito improviso e um sentimento de frustração total. Estávamos de carro com meu irmão (ah, que ainda furou o pneu em meio à tudo isso!) e depois do almoço em Tramandaí fomos soterrados por coco de pássaro numa sombra perto da lagoa. Para lavar a alma e o corpo fomos tomar banho de mar e descarregar as energias pesadas antes de retornar à Porto Alegre. "Numa boa!"
No mês de outubro de 2013, fui chamada num setor público para formular uma proposta sobre o espetáculo com temática ambiental da Companhia. Na mesma semana, enviei proposta para vinte apresentações, que foi o solicitado. Passou-se outubro, passou-se novembro e cansei de ligar e enviar e-mails para saber se a proposta havia sido aceita, pois como a primeira apresentação seria no dia 21 de dezembro, não haveria mais tempo para contratação, então enviei um e-mail elegante, dizendo que sabia da burocracia dos órgãos públicos estatais e ficava aberta a uma outra proposta num outro momento. Imediatamente "os aguapés se mexeram", como diria meu avô e foi uma correria de certidão e assinaturas, empenhos e reuniões para que se desse a tal contratação. Tudo muito amador, muito sem respaldo legal, sem o conhecimento dos trâmites para a realização de uma prestação de serviço. O combinado desde outubro era que metade do valor contratado seria pago inicialmente para as despesas gerais do grupo, pois como já sabemos de outros carnavais, se fizéssemos tudo sem receber, este pagamento só viria em julho e olhe lá, que tem a Copa.
Pois não saiu o pagamento no dia 21 de dezembro, data da abertura do evento e a coordenadora das atividades me pediu com veemência que fizéssemos a abertura, pois talvez demorasse mais uma semana ou talvez duas, até recebermos o valor combinado. Então, como ingênuos e de alma aberta, querendo fazer nosso trabalho fomos à praia de Imbé.
Choque total: não havia estrutura nenhuma para receber qualquer tipo de apresentação teatral. Nada. Havia uma arena com brinquedos infláveis, areia e sol. E nada. Desespero e pavor. Não havia público. Não tinha divulgação. Nada. Pânico. Não foi providenciado um espaço sequer para a montagem do espetáculo, nem precisaria ser um palco, mas um espaço organizado, com um toldo e por que não, até cadeiras para acomodar o público. Nada. Camarim? kkkkkkkkkkk!
O teatro é um excelente instrumento de reflexão, capaz de mobilizar, criar potencialidades humanas, mas sem produção não se basta.
Além destes fatores havia pronunciamentos de várias chefias, governador, música alta, banda da brigada, desfile da operação golfinho, muvuca que não acabava mais e nem um vislumbre de qualquer espectador se aproximar de nós para assistir uma história. Depois de muito atraso e muitas tentativas de formar um pequeno público resolvemos fazer assim mesmo e o espetáculo aconteceu. Aconteceu naquelas, né. Muito improviso e um sentimento de frustração total. Estávamos de carro com meu irmão (ah, que ainda furou o pneu em meio à tudo isso!) e depois do almoço em Tramandaí fomos soterrados por coco de pássaro numa sombra perto da lagoa. Para lavar a alma e o corpo fomos tomar banho de mar e descarregar as energias pesadas antes de retornar à Porto Alegre. "Numa boa!"
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