Aqui começam alguma singelas anotações, um diário paralelo ao oficial a ser entregue às autoridades (in) competentes, recapitulando os fatos para que se pense sempre neles e se reflita o quanto somos tão ingênuos e dependentes de políticas públicas culturais.
No mês de outubro de 2013, fui chamada num setor público para formular uma proposta sobre o espetáculo com temática ambiental da Companhia. Na mesma semana, enviei proposta para vinte apresentações, que foi o solicitado. Passou-se outubro, passou-se novembro e cansei de ligar e enviar e-mails para saber se a proposta havia sido aceita, pois como a primeira apresentação seria no dia 21 de dezembro, não haveria mais tempo para contratação, então enviei um e-mail elegante, dizendo que sabia da burocracia dos órgãos públicos estatais e ficava aberta a uma outra proposta num outro momento. Imediatamente "os aguapés se mexeram", como diria meu avô e foi uma correria de certidão e assinaturas, empenhos e reuniões para que se desse a tal contratação. Tudo muito amador, muito sem respaldo legal, sem o conhecimento dos trâmites para a realização de uma prestação de serviço. O combinado desde outubro era que metade do valor contratado seria pago inicialmente para as despesas gerais do grupo, pois como já sabemos de outros carnavais, se fizéssemos tudo sem receber, este pagamento só viria em julho e olhe lá, que tem a Copa.
Pois não saiu o pagamento no dia 21 de dezembro, data da abertura do evento e a coordenadora das atividades me pediu com veemência que fizéssemos a abertura, pois talvez demorasse mais uma semana ou talvez duas, até recebermos o valor combinado. Então, como ingênuos e de alma aberta, querendo fazer nosso trabalho fomos à praia de Imbé.
Choque total: não havia estrutura nenhuma para receber qualquer tipo de apresentação teatral. Nada. Havia uma arena com brinquedos infláveis, areia e sol. E nada. Desespero e pavor. Não havia público. Não tinha divulgação. Nada. Pânico. Não foi providenciado um espaço sequer para a montagem do espetáculo, nem precisaria ser um palco, mas um espaço organizado, com um toldo e por que não, até cadeiras para acomodar o público. Nada. Camarim? kkkkkkkkkkk!
O teatro é um excelente instrumento de reflexão, capaz de mobilizar, criar potencialidades humanas, mas sem produção não se basta.
Além destes fatores havia pronunciamentos de várias chefias, governador, música alta, banda da brigada, desfile da operação golfinho, muvuca que não acabava mais e nem um vislumbre de qualquer espectador se aproximar de nós para assistir uma história. Depois de muito atraso e muitas tentativas de formar um pequeno público resolvemos fazer assim mesmo e o espetáculo aconteceu. Aconteceu naquelas, né. Muito improviso e um sentimento de frustração total. Estávamos de carro com meu irmão (ah, que ainda furou o pneu em meio à tudo isso!) e depois do almoço em Tramandaí fomos soterrados por coco de pássaro numa sombra perto da lagoa. Para lavar a alma e o corpo fomos tomar banho de mar e descarregar as energias pesadas antes de retornar à Porto Alegre. "Numa boa!"

Nenhum comentário:
Postar um comentário