Ator, do grego, hipocrates, ou simplesmente, aquele que responde em entusiasmo. Artista sujeito e ao mesmo tempo objeto de sua arte. Seu ofício é encantar e comover, fazer rir e chorar, propor a reflexão e refletir-se durante um ato de desnudamento diante dos espectadores, exigindo de si, total sinceridade para aceitar e renunciar, numa contradição de buscar uma certa ausência do que o constitui para permanecer presente.Nesta entrega acontece o encontro teatral, que provoca um efeito de abalo possibilitando ao público empreender um processo semelhante de desvendar-se também.
A partir de minha prática como atriz e ministrante de oficinas, compreendi que todas as técnicas e processos de criação expressivos, tornam-se sem sentido se o momento do encontro não estiver sendo buscado. Este contato é o que mais interessa na medida em que ele é a passagem para um outro universo, um outro entendimento do ser, que resgata a experiência da narrativa. Os mitos, transpostos para histórias e personagens, rompem com a falsa idéia de “sou uma pessoa equilibrada”, pois mostram as vertigens humanas em suas trajetórias e recriam nossos próprios ciclos segundo a base do “princípio, meio e fim”, num movimento em espiral de Eros a Tânatus, num surgimento da vida e sua interrupção com a morte.
A finitude da obra efêmera vivida no ato teatral desorganiza o sujeito diante deste retorno às origens primitivas. É um ato do instante, experiência que quando termina de acontecer, já não existe mais nada de palpável dela e que a partir desta brusca ruptura, revela algo que até então mantinha-se esquecido, discreto, ou até mesmo escondido, mas que vem à tona para perturbar.
Em virtude de um mundo globalizante, da pressuposição de um progresso e de uma visão massiva de produto cultural consumível para diversão e entretenimento, o teatro está sucumbindo. Numa sociedade dispersa que não sedimenta condições sócio-econômicas e desfavorece políticas culturais, há uma desvalorização da narrativa, premonitoriamente vislumbrada por Walter Benjamin, no início do século passado, onde sofremos suas conseqüências como artistas num processo de esquecimento, de memórias esfaceladas e vivências fragmentadas. No entanto, a arte, nem sei como, teima em resistir e resgatar os encontros, “queimando, mas fazendo sinais da fogueira”, como diria Artaud.
Exposto a estigmas e preconceitos sociais, afastado a uma distância em que não coloque a sociedade “em perigo”, o ator supera as suas próprias mortes, suas próprias narrativas descontínuas e se lança a um lugar já visitado diversas vezes e que ninguém pode lhe tirar. Tal lugar é o resto, é o que sobra e ainda assim pode ser dividido, é um lugar que se encontra mais no outro do que no ator mesmo, no qual se refletem cicatrizes expostas, doloridas, verdades cruas e nuas.
A visita a este lugar, ou talvez, não lugar, não demora muito, pois cada instante está cheio de finitude. Para Jeanne Marie Gagnebin “a história só pode ser verdadeira narração e verdadeiro advir se nossos atos e nossas palavras forem penetrados pela finitude e pelo deperecimento, portanto, preciosamente únicos, insubstituíveis, atuais, sem o consolo da imortalidade.”
A cada vez que o olho do ator pousa no olho do espectador, um instante é sugado. Pleno em experiência para ambos, porém, implacável. É um momento sagrado, desconfortavelmente sagrado, no qual cada um recupera um pouco a sua própria história.
O ator deve estar consciente deste processo, e assim como um xamã, precisa ser capaz de conduzir seus participantes a um espaço mítico e a um tempo perfeito, extra cotidiano, embora com referências a afetos e a narrativas precisas e comuns a todos.
Neste contexto, o ato criativo desenrola seu novelo entre os nossos labirintos pessoais, onde muitas vezes as linhas se entrelaçam na procura pela saída e se deparam, neste emaranhado, com verbos e imagens carregadas de constantes inquietações. Édipo, Antígona, Macbeth, ou outros personagens, como os do incômodo cotidiano tratado nas obras de Nelson Rodrigues trazem a cruel beleza do desamparo na essência daquilo que não sabemos, ou não nos convém saber, mas que de algum modo conhecemos e percebemos com os nossos sentidos. Alguém da platéia poderia pensar: “ É só teatro, é faz de conta. Isso não acontece comigo. Ou acontece?”
“Nada parece mais íntimo em nós do que aquilo que é mais estranho”, já dizia Freud, portanto, é natural a fuga em relação à perturbação produzida pela arte, entretanto, quanto maior a nossa resistência, mais seremos perseguidos, nos nosso atos e inclusive nos nossos sonhos, que num primeiro momento podem parecer os sonhos mais inocentes.
A doação no teatro é uma via de mão dupla que atropela o público e o ator também. É uma angústia na troca contínua de quem está doando, ou quem está sendo realmente observado. É um despir-se além da roupa, além da pele.
O desejo tem a ver com isso, com esta coisa que está sempre além. A imagem visualizada, seja ela visual, sonora ou sensorial, nunca corresponde, imprimindo sempre alguma falta. Falta esta que nos atravessa como um corte feito por navalha, cuja ferida derrama sangue, transbordando mais desejo, e por sua vez, mais falhas, produzindo mais cortes retalhados de sonhos, lugares, utopias esquecidas, abandonadas ou censuradas, escorrendo por todo o sujeito com suas potências de tomada de consciência, de atitude, da interrogação e subversão das imposições, da transgressão a partir do ato criativo.
Quando o artista se doa, em qualquer forma de arte, de uma maneira geral, ele experimenta seus limites, e aqueles que são seus cúmplices, são transportados para outras realidades na qual se apresentam rupturas e vazios.
Segundo Maria Inês França, “criamos a partir deste vazio deslumbrante, sempre a ser descoberto, e os produtos criados, determinam, enquanto causa de desejo, outras produções que enlaçam os sujeitos.”
O vazio ocupa nossos espaços cansados de um repetitivo cotidiano vulgar e desbotado. Ele é o nosso quartel general de força resistente contra o fluxo de um sistema viciado e absurdo, permitindo um lugar à criação, ao ousar, à vida, celebração fundamental para todos os encontros.
Particularmente, compartilho agora a revelação de um segredo: Há momentos em que eu duvido do que é real, do que é concreto ou possível de palpabilidade, pois tudo de repente parece vago e etéreo, não parecendo existir, inclusive, eu mesma. No entanto, é a partir do olhar de fora que a minha imagem se confirma por acontecer algum tipo de construção nesta troca. Neste instante, poderíamos todos estar sonhando, eu, vocês, mas se conseguimos ainda nos ver, não importa se é sonho, porque algo da ordem da verdade já existe. Ou seja, é a partir de outro olhar ou de olhares outros que eu mesma e assim, minha arte se atestam e ganham sustentação.
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