quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O JOGO DO ESPELHO

“Agora o escravo é homem livre, agora se rompem todas as rígidas e hostis delimitações que a necessidade, a arbitrariedade ou a ´moda impudente´ estabeleceram entre os homens. Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qual se sente não só unificado, conciliado, fundido com o seu próximo, mas um só, como se o véu de Maia tivesse sido rasgado e, reduzido a tiras, esvoaçasse diante do misterioso Uno-primordial.”(NIETZSCHE)

É preciso de duas pessoas, uma em frente à outra, quando uma delas faz um gesto e a outra copia. Assim, consecutivamente, com um movimento seguido pelo outro, se dá o jogo do espelho.
É simples, mas eu demorei muito a entender este jogo. Nas oficinas de iniciação e nas primeiras experiências teatrais, eu acreditava que se tratasse de repetir, copiar bem o gesto proposto, ser original no que eu propunha, ás vezes, sacanear o outro fazendo movimentos difíceis ou trocando bruscamente o gesto numa competição desnecessária.
Muitos anos depois, repetindo a experiência com um grupo de iniciantes que eu acompanhava depois de formada, eu, já atriz profissional, entendi o jogo. Percebi o quanto o jogo do espelho tinha relação com o teatro, com o contato com o outro, com a expressão e a sensibilidade.
Ver o outro é ver a si mesmo, assim como o crescimento de um ator vem através do contato e do trabalho coletivo. Nos percebemos através dos outros e aprendemos a nos conhecer, conhecendo-os. A experiência do teatro proporciona o contato com o espectador que afirma e atesta a existência daquilo que foi sonhado e colocado em cena. O que são nossos sonhos senão partes ínfimas da imensidão do nosso ser? O público reconstrói sua própria experiência a partir da nossa construção ou desconstrução daquilo que entendemos por existência e reconstituímos sua forma pela obra de arte.
O reflexo do gesto se propaga no outro, retorna a sua origem, viaja na propagação das ondas e faz refletir aquele que o lançou. Em determinado ponto do processo ninguém sabe mais de onde veio o gesto e quem o copiou. A sintonia torna o movimento suave e contínuo, como numa conversa quando não se sabe de onde surgiu determinado assunto.
Nos vemos nos outros, espelhos que nos confirmam. Ora somos o reflexo, ora somos o próprio espelho, para que todos tenham a oportunidade de se perceber.
Já faz um tempo que a arte e o teatro, para falar mais especificamente, mostram certo pudor em erguer seus espelhos, salvo raras exceções. O teatro se esqueceu do jogo do espelho, não facilita o contato, não me olha mais no olho, não me conta a verdade. Muitas vezes dá uma de superior, detentor de um saber, se mostra melhor que eu por estar com seus “artistas” despidos, gritando, se jogando no chão, cuspindo literalmente seus textos mal ditos sobre a platéia espantada, olhando na minha direção, porém não me vendo.
O que é preciso para que o teatro recoloque a sua máscara, aquela que lhe pertence e é sua de verdade? Uma vez, uma de minhas mestras, Maria Lúcia Raimundo, disse numa de nossas aulas que deveríamos buscar o simples, mas que não nos iludíssemos com a palavra, pois na realidade, o simples é uma das coisas mais difíceis de conseguir.
O simples é tirar tudo o que não é teatro, mas está no teatro. É fazer o teatro estar ali, de frente pra nós, revelando seus gestos, seus movimentos que contam uma história e que sem nem perceber faz parte da nossa história também.

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